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O legado de Robert Parry, um dos mestres do jornalismo americano

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Robert Parry, editor da Consortium News, morreu inesperadamente em 27 de janeiro, aos 68 anos de idade.

Seu trabalho inspirou várias gerações de jornalistas nos EUA, mas é possível que muita gente não tenha conhecido seu trabalho ou mesmo ouvido falar dele. Estas são três coisas incríveis a seu respeito:

Primeiro, Parry, foi um dos maiores jornalistas investigativos americanos dos últimos 50 anos. Embora seja mais conhecido por expor o papel da Nicarágua no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan, essa foi apenas uma gota no oceano de ilícitos políticos que Parry desvendou em sua carreira. (Ele ganhou o importante prêmio George Polk e foi finalista do Prêmio Pulitzer pelo trabalho no caso Irã-Contras.) Sem seus livros e os textos de seu site, você corre o risco de ficar com uma visão distorcida da história recente dos EUA.

Segundo, justamente por ser tão competente, ele foi colocado na geladeira da mídia dos EUA. Tanto que precisou abrir a Consortium News em 1995 e depender de doações dos leitores. Sua trajetória é especialmente emblemática porque ele não era ideológico. Diferente, por exemplo, de I.F. Stone, ele não era socialista ou radical. Resumia-se a a ser leal a princípios básicos, quase de escoteiro: “a realidade é importante” e “o governo não deveria mentir o tempo todo”, por exemplo. Mesmo assim, com essa postura, ficou inviável para Parry trabalhar para antigos empregadores, tais como a Associated Press (AP) e a Newsweek, que, segundo ele, tentaram barrar suas pautas mais explosivas e que visavam autoridades e poderosos em geral.

Terceiro, contrariamente ao que a qualidade de seu trabalho sugere, ele não tinha nenhum superpoder. Como diria modestamente o próprio Parry, qualquer ser humano curioso e com senso de comprometimento poderia fazer o mesmo. (Ele só esqueceria de mencionar que, para se tornar tão competente quanto ele, é preciso trabalhar sem alívio todos os dias, a vida inteira.)

Segue uma lista do que entendo serem os segredos do sucesso de Parry. Como se verá, qualquer um pode seguir seu exemplo, não só repórteres “profissionais”.

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Os Estados Unidos são uma sociedade incrivelmente aberta, pelo menos se comparado a vários outros países. A verdade está ao alcance das mãos. Para encontrá-la, você só precisa de uma conexão à internet e um cartão de biblioteca. Parry fez bom uso de ambos.

Ele era um leitor voraz do trabalho de outros jornalistas, que ele usava como base (É possível ver “State of War”, de James Risen, jornalista de The Intercept, na estante de Parry nesta fotografia.) Leu aquelas autobiografias bem modorrentas de políticos — coisa que você, se já tentou fazer o mesmo, sabe que é um sacrifício pelo bem comum — porque considerava que, depois da aposentadoria, os poderosos eventualmente poderiam soltar informações novas e surpreendentes.

Costumava ler, do início ao fim, relatórios governamentais enormes de resposta a escândalos. A maior parte dos jornalistas só folheia os resumos ou as conclusões, que sempre tentam ao máximo isentar o governo de culpa. Mas Parry sabia que é lá no meio dos relatórios que frequentemente se encontram revelações que contradizem totalmente o título.

O relatório de mil páginas da CIA sobre as inexistentes armas de destruição em massa do Iraque, por exemplo, revela que Saddam Hussein não estava possuído pelo desejo de matar norte-americanos. Pelo contrário: durante o governo Clinton, Hussein implorou aos Estados Unidos que voltassem a ser seus parceiros, alegando que ele poderia ser para seu “melhor amigo, como nenhum outro na região”.

Essa pérola estava lá, só esperando para ser lida no site da CIA, mas quase não recebeu atenção da mídia americana. Isso literalmente nunca apareceu no New York Times, e aparentemente nunca foi mencionado pelos canais de TV do país. (O Washington Post mencionou o trecho uma vez em 2004, no penúltimo parágrafo de uma matéria escondida na parte de trás do jornal.)

Robert Parry com o então editor executivo da AP Louis Boccardi, em 1984, recebendo o Prêmio George Polk na categoria Jornalismo Nacional.

Photo: Consortiumnews

Nunca esqueça da história

Talvez você se lembre que no livro “1984”, de George Orwell, o Partido tinha um slogan: “Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado.” Ou, como escreveu o novelista tcheco Milan Kundera, “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

Mais do que aforismos elegantes, essas afirmações estão no cerne do funcionamento de todos os países. A “história” é constantemente reescrita por quem está no comando, chega a ser irritante.

Parry tinha profunda compreensão desse fenômeno: um de seus livros se chama “Lost History” [“História Perdida”, sem tradução no Brasil], e outro foi intitulado “America’s Stolen Narrative” [“A Narrativa Roubada da América”, também sem tradução brasileira]. Ele sabia que o jornalismo convencional, que continuamente alimenta a audiência com informações fragmentadas, simplesmente não funciona. Seres humanos compreendem o mundo por meio de histórias. Se você mostra informações que contradizem a história já têm em mente, elas vão cair em ouvidos moucos. Assim, sempre que Parry noticiava fatos novos, ele traçava também um extenso plano de fundo narrativo para explicar por que esses fatos eram relevantes e críveis. As histórias que ele contava eram mais complexas e mais desafiadoras que a versão oficial, mas tinham a vantagem de serem verdadeiras.

Se você duvida da importância da narrativa preexistente nas cabeças dos leitores, pense na atual cobertura sobre assédios e abusos sexuais. É um dos exemplos recentes de jornalismo de impacto explosivo, com potencial para realmente promover mudanças na sociedade. E metade da população mundial já sabia da verdade e da importância do tema.

Seja repetitivamente repetitivo, repetidas vezes

O consultor político Frank Luntz recebeu milhões de dólares do Partido Republicano e de grandes empresas que queriam comunicar de maneira mais efetiva. Em seu livro “Palavras que Funcionam: Não é o que Você Diz, é o que as Pessoas Ouvem”, Luntz recomenda: “Repetição. Repetição. Repetição […] Você pode ficar enjoado de dizer exatamente a mesma coisa pela enésima vez [mas] a absoluta maioria dos seus clientes ou eleitores não está prestando tanta atenção quanto você.”

Ainda assim, os jornalistas são instruídos exatamente a evitar a repetição. Afinal de contas, trabalham com “atualidades”, não “antiguidades”. Editores detestam dar uma notícia se algum outro veículo já o fez, ou se sua própria publicação já disse algo semelhante anteriormente.

Parry rejeitava isso. Ele voltava inúmeras vezes aos mesmos assuntos, abordando-os repetidamente de diferentes ângulos. Percebia que a novidade pode até ser excitante para os jornalistas, mas é o oposto do que os leitores precisam para compreender o que está sendo dito. “Encontrar uma boa mensagem e permanecer com ela exige uma disciplina extraordinária”, diz Luntz em seu livro, “mas no fim das contas o retorno é dez vezes maior”. Parry tinha essa disciplina extraordinária, assim como comunicadores progressistas mais efetivos, como Noam Chomsky e o economista Dean Baker, também têm.

Então o que foi que Parry descobriu usando esses métodos? Segue abaixo uma amostra resumida das suas histórias mais impressionantes.

A proteção do governo Reagan a traficantes de cocaína

Até hoje essa história é considerada uma teoria da conspiração maluca. Mas não é.

Em 1985, Parry, juntamente com Brian Barger da AP, foi o primeiro a noticiar que os Contras da Nicarágua estavam sendo financiados com recursos da venda de cocaína nos Estados Unidos. Parry continuou trabalhando nessa história até o fim da vida.

Desde então, a conexão Contras-cocaína já foi amplamente documentada por diversas investigações governamentais. A pedido do diretor da CIA William Casey, em 1982, o Departamento de Justiça tinha suspendido as exigências para que a agência reportasse pessoas envolvidas em tráfico de drogas. Oliver North, então parte do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, escreveu em seu diário que milhões de dólares usados para financiar os Contras vieram da venda de cocaína. O governo norte-americano interveio para evitar que houvesse consequências legais para a conexão entre os Contras e a cocaína.

A conspiração de Richard Nixon para manter a Guerra do Vietnã em curso

Quando estava em campanha contra Hubert Humphrey em 1968, Nixon estava preocupado com a possibilidade de Lyndon Johnson assinar um acordo de paz para encerrar a Guerra do Vietnã, o que aumentaria as chances eleitorais de Humphrey. Nixon então lançou mão de canais secretos de comunicação com o governo do Vietnã do Sul para encorajá-los a evitar que isso acontecesse. Ele foi bem-sucedido e prolongou a guerra por anos, ao custo das vidas de dezenas de milhares de americanos e de mais de 1 milhão de pessoas em toda a Indochina.

Acreditar nessa história foi motivo de vergonha em Washington por décadas. Mas Parry continuou a apurar, e divulgou um memorando secreto elaborado pelo principal assessor de Johson, Walt Rostow, sobre a documentação conclusiva do governo mostrando que Nixon realmente agira assim. Parry também escreveu uma matéria com provas de que Nixon teria dado a um amigo banqueiro de Wall Street informação privilegiada de que estava bloqueando o acordo de paz, o que permitiu ao banqueiro e aos seus camaradas apostar nessa informação para obter lucros.

Já ficou provado, sem sombra de dúvida, que Nixon de fato trocou imensas pilhas de cadáveres por uma chance maior de ser eleito.

É extremamente provável que a campanha de Reagan em 1980 tenha conspirado com o Irã

Parry passou anos perseguindo essa pauta, o caso conhecido como “Surpresa de Outubro”, sem nunca conseguir fechá-la completamente. Mas encontrou provas circunstanciais extremamente convincentes de que a campanha de Reagan conspirou com o Irã para manter os reféns americanos até depois da eleição.

Uma intrigante descoberta aconteceu em 1994, quando Parry encontrou meio por acaso documentos sigilosos da investigação do governo sobre o caso, num isolado banheiro do Capitólio que vinha sendo usado como depósito. Ali ele encontrou um relatório de seis páginas enviado pela Rússia aos EUA, que dizia que, em 1980, a inteligência soviética havia rastreado William Casey (então chefe de campanha de Reagan) e George H.W. Bush (colega de candidatura de Reagan) em diversos encontros com representantes iranianos na Europa.

Agora que a relação entre os EUA e a Rússia está bem em baixa, fica difícil lembrar que naquele tempo a Rússia estava extremamente ansiosa para se manter nas graças dos Estados Unidos. É difícil imaginar que motivo os russos teriam para enganar os EUA. Parry noticiou que um diplomata europeu dissera que o governo russo via esse relatório como “uma bomba” e “não conseguia acreditar que ele tinha sido ignorado”.

Jimmy Carter pode ter dado permissão a Saddam Hussein para invadir o Irã

Nos mesmos documentos confidenciais da Surpresa de Outubro, Parry encontrou um memorando ultrassecreto de 1981 do secretário de Estado Al Haig para Ronald Reagan. Haig tinha acabado de fazer sua primeira viagem ao Oriente Médio e disse a Reagan que tinha sido “interessante confirmar que o presidente Carter deu aos iraquianos sinal verde para começar a guerra contra o Irã por intermédio do [príncipe saudita] Fahd”.

Isso não prova que Carter deu de fato a autorização. Só prova que Haig alegou que os sauditas teriam alegado que aconteceu. No entanto, Hussein visitou a Arábia Saudita em 5 de agosto de 1980, e ordenou a invasão do Irã no mês seguinte. Parry também apontou que, quando o governo retirou a confidencialidade do memorando de Haig em 2015, apenas dois de nove parágrafos haviam sido editados, incluindo o que continha a declaração de Haig sobre Carter.

E tem uma pessoa que aparentemente lê o trabalho de Parry e leva  a sério: o líder supremo do Irã Ali Khamenei. Em um famoso discurso em 2009 na Mesquita de Imam Reza em Mashhad, Khamenei declarou que os Estados Unidos “deram sinal verde a Saddam […] Se Saddam não tivesse recebido sinal verde dos americanos, não teria atacado nossas fronteiras. Eles impuseram oito anos de guerra ao nosso país. Cerca de 300 mil dos nossos foram martirizados”.

Democratas importantes permitiram de tudo aos Republicanos

Lyndon Johnson sabia o que Nixon estava fazendo em 1968 graças ao serviço de vigilância do FBI. E ainda assim, conforme mostrou Parry, Johnson e seus assessores decidiram que era melhor não revelar a verdade. Como o secretário de Defesa de Johnson, Clark Clifford, disse a ele logo antes da eleição: “Alguns elementos dessa história são tão chocantes que eu me pergunto se seria bom para o país divulgá-la […] Poderia jogar tanta dúvida sobre um [possível] governo [de Nixon] que me parece que seria prejudicial aos interesses do país”. Então, em 1973, Walt Rostow [economista e cientista político que atuou como Assistente Especial para Questões de Segurança Nacional durante o governo de Johnson] pegou a documentação que possuía das ações de Nixon e entregou à Biblioteca Presidencial LBJ com instruções para que os documentos não fossem abertos por 50 anos. (Eles acabaram sendo abertos após 20 anos).

Quando Bill Clinton assumiu a presidência em 1993, estavam em curso três investigações importantes sobre os governos Reagan e Bush:  a Surpresa de Outubro, o fornecimento de armas por Reagan ao Iraque durante a guerra com o Irã, e o caso Irã-Contras. Clinton permitiu que todas elas fossem sendo esquecidas. Por quê? Porque, como depois contou a um convidado da Casa Branca, ele queria a cooperação dos Republicanos no Congresso e fazer concessões a eles. Os republicanos responderam à rendição unilateral de Clinton entrando com um processo de impeachment contra ele.

De forma semelhante, Yasser Arafat, o falecido líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), disse a Carter em uma reunião em 1996 que a campanha de Reagan em 1980 havia prometido enviar armas para a OLP se Arafat convencesse o Irã a manter os reféns até depois das eleições. Carter ergueu as mãos, sinalizando que não queria mais ouvir falar do assunto.

Essas revelações são apenas uma amostra das informações fenomenais, alarmantes e assustadoras que podem ser encontradas nos livros de Parry e na Consortium News. Como é o caso com qualquer fonte, é preciso ler seu trabalho com cuidado e uma dose de ceticismo; ele mesmo não esperaria nada diferente. Pessoalmente, eu discordo de alguns (mas não de todos) artigos recentes que ele escreveu sobre a Síria e o potencial conluio entre Donald Trump e a Rússia. Porém, se você não se familiarizar com seus escritos, não terá a menor ideia do que está acontecendo.

O universo é mais escuro e frio sem Robert Parry, mas ele nos deixou instruções detalhadas para fazer uma fogueira do tamanho que quisermos. Se queremos ter vidas decentes num país funcional, ele seria o primeiro a nos estimular a começar a trabalhar nisso agora mesmo.

Foto do título: Robert Parry é apresentado por Bill Kovach durante o Prêmio I.F. Stone, em 22 de outubro de 2015.

Tradução: Deborah Leão

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