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Governadora e comandante da PM de Roraima alimentam fake news contra venezuelanos

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O que leva a um episódio de histeria coletiva como a que vimos neste fim de semana, em Roraima, em que milhares de pessoas colocaram fogo em acampamentos e expulsaram 1,2 mil imigrantes de volta para a Venezuela? Boa parte pode ser explicado por números inflados e desinformação por parte do governo e da mídia local – ou seja, fake news.

O caos do último sábado começou com um boato, disseminado pelo WhatsApp, de que um grupo de venezuelanos teria assaltado e espancado um comerciante de Pacaraima, cidade de fronteira. A situação culminou com três horas de violência da população contra os imigrantes – antes mesmo de qualquer manifestação da autoridade policial, que ainda investiga os autores.

Mas não é apenas pelo WhatsApp que essas informações surgem. A governadora Suely Campos, do PP, já tentou fechar as fronteiras com o país vizinho e reduzir o atendimento de serviços básicos a imigrantes (todos barrados pela Justiça) e costuma colocar nas costas dos venezuelanos tanto a culpa por novos casos de sarampo quanto pelo aumento da criminalidade. Mais de 100% de 2017 para 2018 e de absurdos 1.300% de 2015 para o ano passado, segundo dados da Polícia Militar do estado.

O aumento na criminalidade é repetido com frequência pela governadora, inclusive no pedido que fez ao Supremo Tribunal Federal para fechar a fronteira, que usa a PM como referência – entre 2015 e 2017, teriam sido registrados 2.482 crimes envolvendo venezuelanos. Do começo de 2017 até maio de 2018, outros 3.579 casos.

A questão é que esses números são contestados pela Polícia Civil e pela própria Secretaria de Segurança do Estado.

Entre 2015 e 2017, informou a Polícia Civil, o Estado teve sim um aumento na violência, passando de 7,9 mil boletins de ocorrência registrados na capital Boa Vista, para para 15,2 mil. Desse total, no entanto, apenas 65 casos foram relacionados com estrangeiros.

O dado é semelhante ao registrado pela Secretaria de Segurança. Ano passado foram registrados, segundo dados da Secretaria citados em artigo publicado pelo professor do Centro Universitário Estácio de Sá e especialista em segurança pública Rodrigo Luiz Soares Evangelista, 21 ocorrências envolvendo venezuelanos, a maior parte por furto, ameaça e lesão corporal.

O comandante da PM de Roraima, Edison Prola, já disse que é contra a chegada de imigrantes no estado. Para Prola, há aqueles que “vieram bandidos” e aqueles que “se tornaram bandidos”. “Venezuelanos agridem médicos, policiais, militares de abrigos de acolhimento comando pelo Exército. Sabemos que há famílias que fogem da fome, miséria, falta de medicamentos. Mas vieram foragidos, indivíduos com o intuito de roubar. Temos venezuelanos matando, traficando, estuprando e fazendo parte de facção criminosa”, afirmou Prola no começo do mês, quando o estado tentou limitar o atendimento de venezuelanos a serviços de saúde.

O comandante, no entanto, aborda apenas superficialmente a principal causa do aumento da criminalidade em Roraima: a disputa entre duas facções criminosas rivais. Roraima é hoje um dos estados com maiores índices de homicídio de jovens e mulheres segundo o Atlas da Violência do Ipea.

Na reunião no domingo de Michel Temer com ministros para discutir a crise em Roraima, a avaliação dos participantes, de modo reservado, foi de que Suely Campos estaria usando a máquina estatal para inflar a população contra os venezuelanos e, assim, conseguir votos para sua reeleição. Ela é uma das principais adversárias do senador Romero Jucá, do mesmo MDB de Temer.

Em um Estado de pouco mais de meio milhão de habitantes em que a chegada de levas de venezuelanos já foi associada até a falência dos órgãos de saúde, educação e segurança pública, problemas históricos em Roraima e que se intensificaram com os cerca de 50 mil imigrantes que já cruzaram a fronteira, abraçar a xenofobia parece ser o melhor palanque eleitoral.

Foto em destaque:A governadora Suely Campos, do PP, que já tentou fechar as fronteiras com o país vizinho e reduzir o atendimento de serviços básicos a imigrantes.

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